Segunda-feira, 3 de Setembro de 2018

Reflexos e Libelinhas

Na noite desse dia anterior, ainda antes de jantarmos saladas e mimos feitos pelas mães, já me tinha safado dos mosquitos com o repelente da Beatriz e do Israel. Mas depois de brincarmos com a Via Láctea e meteoritos, com a ajuda de apps de encantar, a hora de dormir foi pior, com as variações de temperatura e humidade dentro da tenda, juntando-se às dores de ancas a cada vez que mudava de posição, meio dentro, meio fora do saco-cama condensado.

Para trás tinha ficado quase uma hora de fila desde o Monsanto até ao fim da ponte, desde sexta ao fim da tarde rumo ao Sul, com todos os espertalhões de carros alemães irritantes a pesar na fila, demorando esses apenas cinco minutos a sair do último dia de Agosto.

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No dia seguinte quase todos foram com os caiaques para o meio da barragem. Eu fiquei, naquela espécie de enseada natural, por causa do calor logo de manhã, do risco de escaldões, e sobretudo pelo medo de sentir o protector solar na pele. 

Todavia, estava ali aquele pequeno colchão verde, flutuando de brincadeiras anteriores. Deixando para trás os sobreiros cercados de erva seca salpicada de bosta de vaca, entrei, desconfiado do fundo negro e barrento com peixinhos minúsculos nervosos. O contraste da temperatura do ar e da água fez-me ir muito devagar a partir dos joelhos para cima. Como um velhinho, fui molhando o peito, as costas e os ombros. Depois a cabeça, peresbiterianamente, repetindo várias vezes. Acabei por ambientar toda a pele e passei para o colchão, daqueles de almofada e rede ao meio, que nos fazem ficar dentro de água.

 

Depois de umas barbatanadas de diversão deixei-me á deriva, enquanto cegonhas lá ao fundo faziam os seus negócios, ora voando, ora descansando. Alguns miúdos jogavam frisbee dentro de água com a Vandinha e os sons das cigarras não faziam eco, senão aquele que batia nos enrolados do relevo Alentejano, o que me transmitia uma sensação enorme de paz. Deitado de costas para baixo, braços de fora, as mãos molhavam o corpo enquanto os meus olhos avistavam os reflexos do Sol na água, vinte centímetros acima da superfície tranquila. As cores que o Sol fazia pintavam a minha cabeça de felicidade, esquecendo por momentos todas as lágrimas e cancros que deixei em casa. Enquanto olhava para as pontas dos pés molhados esticados para cima, dezenas de libelinhas faziam-me razias, bichanando segredos feitos de zumbidos abafados de Verão calmo, libertando-me de mim com toques divinos de perlimpimpim.


Leão Perplexo às 23:37
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