Segunda-feira, 21 de Maio de 2018

Chulos! Joguem à Bola!

Antes de mais, parabéns ao Desportivo das Aves. Que dia histórico naquela vila! Que momento para recordar em anos vindouros. Caros amigos sportinguístas como eu, será que não são capazes de perceber essa festa única e parabenizar o nosso respeitável adversário de hoje que não teve, como se esperava, qualquer elemento entre os detidos da PSP?

 

"Chulos"? "Joguem à bola!"? A sério, é isso que lhes estão a chamar? Depois do terramoto que foi a semana passada, não aprenderam nada. Ainda bem que não os deixaram ir com paus para dentro do estádio...

 

Proponho um exercício de ficção. Apenas suponha.

 

 

Você é estrangeiro. Você nasceu e cresceu numa família unida, com princípios. Desde miúdo que se vê que tem um jeito especial para o futebol, a sua paixão desde que nasceu. À sua volta todos o animam e a sua confiança cresce consigo, sabendo que um dia será, sem sombras de dúvidas e conforme o sonho de qualquer rapaz, um jogador de futebol.

E isso acontece, de facto. Desde menino, categoria após categoria, você vai tendo a confiança de treinadores e colegas. Não há quem não goste de si e é respeitado. Já não é o melhor da rua, mas o melhor do clube da terra e dois anos mais tarde campeão e chamado com frequência à selecção do seu país. Você é disciplinado, honesto, e tem uma casa comprada a pronto. Casa, e quando a sua mulher engravida do seu primeiro filho, o seu agente diz-lhe que há um clube em Portugal disposto a contratá-lo por vários milhões de euros. Um dos "Três Grandes", dizem-lhe. No auge da sua curva de aprendizagem, você pondera com os seus pais, mulher e irmãos qual o melhor rumo a tomar. Mal ouviu falar desse tal de "Sporting", mas sabe que tem história, uma equipa interessante e que lá são ambiciosos e deixarão a pele em campo para ganhar títulos. Aceita o desafio, sabendo que o dinheiro que há de ganhar lhe será propício e à sua família. Assina, num dia de Sol, prometedor e cheio de sorrisos, perto de uma foto com Figo e Cristiano Ronaldo à sporting, sonhando acordado com aquele patamar, enquanto vê os disparos de flashes fotográficos e as câmeras de filmar das televisões portuguesas alentarem a sua esperança.

 

Não demora muito tempo até perceber que afinal o boato era mesmo verdade e entende que o presidente do clube é mesmo um maluco incendiário. Com notícias em contramão, você começa a ter dúvidas se não poderia ter uma vida mais tranquila perto da família a ver os seus filhos crescer. Apesar de ser sempre titular, a época, ou melhor, as épocas sem títulos tornam-se um pesadelo e o clima agitado de corrupção insuflado e ampliado por media sem travões em Portugal fazem-no pensar no seu regresso a casa. Você está farto, cansado e arrependido. Só quer voltar. Mas é um profissional, tem um contrato e, mesmo não sentindo o emblema, os seus princípios dizem-lhe interiormente que contratos são para cumprir. As saudades terão de esperar.

 

Mas os casos sucedem-se. Primeiro com um colega, depois com outros companheiros e finalmente consigo. Junto com os seus amigos, você é publicamente enxovalhado por presidente e adeptos perigosos sempre que a equipa não ganha. As multidões apertam-no e gritam-lhe na cara. Você sente o medo por si e pela sua família, ao mesmo tempo que está proibído de perder. Chora às escondidas para os proteger. Os seus amigos lá longe telefonam-lhe. Os seus pais andam preocupados e pedem-lhe que volte nem que seja por empréstimo. Para casa ou para outro sítio qualquer. Tudo menos esse clube de malucos. Em casa, a sua mulher chora, sente a falta da família e implora-lhe que voltem. Você sabe que é impossível.

 

O Campeonato e a Liga Europa já foram. Só faltam dois jogos e tudo ainda pode acontecer. Liga dos Campeões em aberto e a final da Taça de Portugal. Se ganharmos no Marítimo e ao Aves, será a melhor época desde 2002, visto termos ganho a Taça da Liga.

Mas a coisa corre mal. Uma derrota na última jornada deita fora a hipótese dos milhões da Champions. Assim como os seus colegas, você é sempre o culpado e a claque mais violenta do clube aparece de surpresa na Academia para vos pôr na linha. O presidente acha normal 50 encapuzados com paus e cintos, baterem em jogadores e treinadores, e ainda por cima a cinco dias do jogo mais importante da época. "É Chato".

 

Ao fim do dia, em que a televisão e internet se juntam para o aterrorizar a si, os seus colegas e respectivas famílias, as cenas de violência estão para trás, mas os seus filhos estão inquietos por terem falado com os avós ao telefone e terem visto a mãe a chorar o dia todo. Ninguém lá em casa consegue dormir de jeito. A última semana da época no clube tornou-se num inferno que dinheiro nenhum pode pagar. A sua mente está feita num oito, tal como a dos seus companheiros e terá ainda de fazer um jogo tão importante?...

 

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Bem. Já vi muitos jogos no estádio. No passado, que agora não me apanham lá nem que a vaca tussa. Vi lá muita coisa. Mas em todo esse tempo houve uma coisa que nunca vi: uma equipa assobiada jogar melhor. Por isso a minha única pergunta é: depois da última semana, afinal, de que é que estavam à espera?


Leão Perplexo às 01:53
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