Domingo, 27 de Agosto de 2017

Deadpool VS Aonde é que Pára a Polícia

Uma característica que distingue o cinema europeu do americano é o financiamento. Enquanto que na Europa a tendência é mais para o subsídio estatal, na América é inteiramente para o investimento privado. É claro que os conceitos não são estanques, claro que não é sempre assim, mas essa é uma tendência.

Se na Europa o subsídio acaba por ser a fundo perdido e, por exemplo, um realizador, acabe por ter mais liberdade de manobra, podendo manter-se mais fiel ao seu projecto, e fazendo com que, na minha opinião (para o meu gosto), o cinema europeu seja melhor sofrível; por outro lado, no outro continente, porque o investidor é rei do cinema, os seus filmes são mais industriais, sujeitos a crivos marketianos, mas também mais rentáveis e em quantidade, o que é um pressuposto de indústria. É sobre esse cinema de fingimento que escrevo.

 

Neste Verão, durante as férias vi alguns filmes em DVDs emprestados. Entre eles, e por comparação, até porque os vi com intervalo de horas, salta à minha vista a dicotomia possível entre o recente "Deadpool" (2016) e o antigo "Aonde é que Pára a Polícia" (The Naked Gun, 1988), ambos na categoria de "comédia".

Enquanto fui às lágrimas de riso, de novo, trinta anos depois, com as peripécias de Frank Drebin, interpretado pelo falecido Leslie Nielsen; só me apetece dizer "nojo" sobre a miséria pegada que "Deadpool" é e da famigerada obrigação de ver um filme que é referência para sobrinhos e respectiva geração. O que não deixa de ser bastante paradoxal.

Não pensando nas negociações de contratos, digamos, salários apensos, (e até mesmo com esses,) The Naked Gun terá tido um budget bastante baixo. Tornou-se um clássico, quer pelo tipo "diferente" de humor, começado no universo de Zucker, Abrahams and Zucker em "Top Secret" e "Aeroplano", quer pelo incrível script, cheio de pérolas, surpresas e detalhes a decorrer em background, invisíveis aos desatentos, a cada segundo. Não sei se terá sido um sucesso de rentabilidade de nível mundial. Mas é um filme histórico que não precisou de malabarismos de marketing para o ser. 

Com "Deadpool" a coisa é completamente inversa. Começa com nomes muito conhecidos e da moda destes personagens de plasticina de Hollywood, acenando de imediato às massas. Carinhas larocas, actores e actrizes medíocres, mas com apelidos e contratos de largos milhões. A realização é igual a todas as do género, o guião é fraquíssimo e a sensação de aborrecimento invade qualquer ser humano que goste de cinema, ou simplesmente de uma história. Está tudo nas cores, na composição e nos efeitos especiais. Mal dá para acreditar que já há "Deadpool 2" na forja. Ou, melhor observado, quem invistiria num primeiro filme assim? Seria possível na Alemanha ou França?

Mas como? Como se investem milhões nisto? Humm... pensando bem, este até é o típico filme da época em que vivemos. Com as família e valores em falência, este tem um super-herói (ou vários) em acção constante, o culto ao sexo é omnipresente (isto parece-me intemporal), e tem mais 3D do que salsicha em cachorro-quente, relegando o core do cinema para um canto. Bem na moda. Tudo é virtual. Não há nada de realidade, apenas rimas disso. Lixo. O retorno financeiro é, afinal, e melhor pensando, garantido.

 

Mas a parte pior, mesmo o pior de tudo, é que não tem piada. Quase todos os gags andam à volta de sexo, como muitos em "Aonde é que Pára a polícia", mas com a simples diferença de que um tem graça e o outro é uma desgraça. Resumindo e concluindo, "Deadpool e a Obsessão da Masturbação", podia ser este um possível título alternativo, é uma seca, um filme a evitar, custe o que custar.

 

E duma próxima não há sobrinho que me convença a qualquer sequela.

 


Leão Perplexo às 19:36
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1 bitaite:
De Chic'Ana a 28 de Agosto de 2017 às 11:00
Não vi o DeadPool, bastou-me ver a apresentação para o descartar e ainda bem que assim foi. Gosto de comédia, mas há anos que não há uma que me cative a 100%.
Beijinhos


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