Segunda-feira, 2 de Outubro de 2017

Descomunicação

- O quê?!... Vais casar no fim de semana?! Não sabia!

- Pensei que sabias! Estava no Face...

 

Como se fosse obrigatório. Se calhar é. Mas para quê? Quando me explicaram pela primeira vez como funccionava uma rede social, muitos anos atrás, percebi logo a marosca, de fio a pavio. Adivinhei tudo o que ía acontecer às amizades e coisas dessas. E aconteceu. Deve de ser dos meus super-poderes desmarvelianos. Ou da minha infalível bola-de-cristal. Bem, se não fosse por uma boa razão não poria lá os pés, ou os dedos, engendrei eu. E assim foi. Três (muito) breves passagens pelo livro de carinhas foram mais que suficientes para perceber o caminho das enxurradas de lixo que lá passam, que já basta, e que todo o minuto lá passado foi demais. Não há "boa" razão que me faça querer ser um do rol.

 

Como saber que a comunicação está em vias de extinção? Fácil. Quando ficamos a saber de gravidezes, de amizades chegadas toda a vida, porque alguém me disse que viu a novidade há uma semana no Instagram que não tenho nem nunca tive. Pois é. Fica uma sensação agridoce, de espanto e incontida alegria por um lado, por um nascimento desejado, a quem amamos; mas também a de uma dor pequena, afiada e fininha porque, afinal, mas surpreendentemente, não eramos assim tão amigos e não percebemos imediatamente o porquê.

Também constatamos, quando ficamos dez anos sem nos vermos e, apesar de vivermos a um par de quilómetros, e de convites para jantar ou café, nunca arranjamos tempo porque deixamos de ser quem somos por não fazer parte da equipa que joga a imperativa, incontornável e indispensável discussão sobre as próximas eleições, trend, futebol ou telenovela.

 

Damos cabo de amizades por amor aos écrans. E admiramo-nos de as crianças andarem apáticas e catatónicas. Sim, aí sabemos que a comunicação se finou. E por isso sou uma aberração. Um ermita off-grid. Um desinformado. Um info-excluído. De facto, há coisas para as quais não tenho ainda estômago para chamar minhas. Nem normais.

 

Não me deixarei sócio-enredar. Optarei sempre por comunicar. O preço? Hei-de morrer sozinho, claro está. Mas, com um pouco de sorte, talvez alguém dê conta disso:

 

- Ai morreu? Ó diacho, não sabia. Quando é o funeral?

- Já foi. Há dois anos atrás.

 

fb.jpg


Leão Perplexo às 11:06
linque do poste | mandar um bitaite
2 bitaites:
De Uma brasileira esquisita! a 3 de Outubro de 2017 às 17:32
Muuuito bom! #curti!

A única coisa... Sem o face da Vandinha não teria visto esse texto mara!

Porém, há muito pouco (se tiver) algo útil nas redes!

Abraços e sdd de vcs!

PS. Uma boa função é fazer propaganda da vossa terrinha! :)


De João Leal a 9 de Outubro de 2017 às 10:42
Na mouche!


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