Sábado, 21 de Julho de 2018

Hockey em Patins

Quem cresceu numa cidade de periferia com equipa de hockey na primeira divisão sabe bem daquilo que falo. Não posso, nem quero, esquecer dos jogos que assisti nas bancadas de cimento do pavilhão da Académica da Amadora, quando era miúdo, com estes mesmos olhos que a terra há de comer. Das balizas de madeira pintada de branco, e dos fiscais acocorados atrás, de bandeirola, validando os golos. Das bolas de cortiça e alcatrão, das esgrimas tenazes de sticks nas tabelas, e das travagens violentas, com aquele som chiado ecoando nas publicidades de contraplacado e no telhado de lusalite armado de ferro. Eu próprio, com os patins articulados usados do meu primo, aprendendo a patinar com outras crianças junto à corda, com vista a uma pré-época nos infantis, dias antes de Chana, Livramento e Ramalhete jogarem ali mesmo, com categoria universal, nos mesmos tacos dos meus solavancos e nódoas negras traseiras. O Sporting campeão europeu. Os jogos à cunha no Pavilhão dos Desportos*, no meio do fumo de milhares de cigarros nervosos sem claques vernáculas. Só com adeptos barulhentos de nervos em franja.

 

 

Tal como no futebol, Portugal é campeão europeu de hockey-em-patins. Pelo menos até Amanhã. Logo à noite jogará a meia-final contra Itália. Se vencer, terá no dia seguinte oportunidade de revalidar o título, talvez contra Espanha. O que é mais provável de acontecer do que no futebol.

Mas há diferenças mais notáveis. Por exemplo, este Mundial de futebol que passou, vi meio jogo de Portugal contra Marrocos. Péssimo. Depois voltei a ver meio jogo contra a poderosa equipa do Irão de Queiroz. Um desastre. A partir daí não vi mais nada, o que quer dizer que já vi muito mais Portugal no Europeu de hockey, acompanhando pela RTP1, do que Mundial de futebol. As razões são mais que muitas:

Os jogadores fazem a sua magia equilibrados em patins, o que torna o jogo mais artístico, veloz e atractivo quando o entrosamento é perfeito, coisa que acontece quase sempre. Em todos os jogos há, literalmente, pauladas de golos para todos os gostos, e por isso muita festa. Não há patrocinadores oficiais evidentes porque não é organizado pela FIFA, o que dá a hipótese de as pessoas felizes nas bancadas, feias e bonitas, poderem aparecer na TV sem escrutíneos elaborados de estética. O jogo é envolvente o tempo todo, e não chato, como o futebol. No final dos jogos, as televisões todas não são inundadas por programas iguais uns aos outros a comentar jogada a jogada, palavra a palavra, segundo a segundo. Acima de tudo, a equipa nacional de hockey possui um colectivo acima das individualidades, e não uma amálgama de egos do pontapé na bola, uns mais entrevistáveis que outros, apesar da camisola ser da mesma cor. Nos dorsais de hockey está escrito "PORTUGAL" em maiúsculas, acima dos números, e isso faz toda a diferença.

Enfim, o hockey-em-patins é um património nacional, talvez com mais raiz popular nesta nação, e apenas comparável com a "Malha" e a "Sueca". Não percebo porque há tão pouca gente a assistir, quando comparado com futebol.hockey.jpg

* Actual Pavilhão Carlos Lopes.

 


Leão Perplexo às 14:11
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