Quinta-feira, 19 de Abril de 2018

Nas Fronteiras da Indústria do Desemprego

Anos atrás, nunca esquecerei, a Vandinha desempregada e a história da convocação de entrevista de centenas para um lugar a trinta quilómetros de distância, e afinal quem pagasse vinte euros à cabeça, obteria preferência enquanto candidato. Em dias ou horas, imagino que estes empregadores benevolentes devem ter rapado umas boas centenas ou milhares de euros, à conta de pessoas entretanto já de corda esticada à garganta e, quem sabe, sem terem ao menos qualquer posto de trabalho a oferecer. Debulhado aquele campo era só mudar de esquina, de entrevistados e entrevistadores, talvez à custa de desempregados "à experiência", "em estágio", perpetuando o esquema, pilhando os recursos alheios como gafanhotos em terra afadigada. Raios os partam, sangue-sugas do sustento arduamente amealhado...

E há tantas coisas destas. Não me aguento de conter a fúria. Claramente não sou daqui. As lágrimas que ainda hei-de chorar dizem-me que não.

 

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No final de Outubro, ardia ainda Portugal, mudava eu de ares laborais. A escolha foi minha, logo, minha a responsabilidade também. Então, antes de ser dispensado, trabalhei no novo emprego por três semanas. Três dolorosas semanas de dormir mal, comer mal e defecar pior. Não nos aguentámos. Não me aguentei com o stress, o novo e incontornável player do tema "Trabalho". Fui despedido, logo após largar os calções, ainda no começo das baixas de temperatura de Outono.

Pedi o subsídio, que obtive, e fiz-me de novo à labiríntica ciber-estrada da procura de emprego. Como para qualquer pessoa às portas dos cinquenta e com o décimo segundo ano de escolaridade*, as minhas passas do Algarve (re)começaram. Primeiro, havia a hipótese de voltar para trás, ao emprego anterior. Com um contrato pior, mas ao menos regressando à familiaridade das origens, de onde tinha saído. Mas nem isso. Por muitas complicadas razões, não se concretizaria.

 

Com ânimo à partida, motivado, apesar das vicissitudes, fui visitando o GIP, enviando currículos. Para perto de casa, primeiro; alargando um pouco o anel, depois, devagar. "Na minha área", principalmente, mas escolhendo menos, na sequência. Tive duas respostas. Amavelmente, ambas diziam que não precisavam de mim.

Para compôr a despensa, um trabalhinho pequeno aqui, outro freelancezinho ali. Durante o processo, sempre a Internet. Portefolio online constantemente em actualização. A encravar mais que a ajudar, linkedines e outras parafernálias de fazer dinheiro à conta do desempregado, como sejam olheiros de empresas de "trabalho temporário". A pouco e pouco, sem surpresas, o desânimo instala-se. Salvo raras excepções, o sistema de procura está feito para que o desempregado seja empurrado para a dificuldade e o lucro de outrém. Dos predadores e agentes de predadores. Isso e só isso. Não apenas um sistema, mas também, e especialmente, uma Indústria. A Indústria do Emprego.

Já não dá mais para suportar listas intermináveis de requisitos do outro mundo, como por exemplo, mestrados em cascata, conhecimento do mercado chinês, fluência em árabe, UX, UI, Linux, flauta transversal, mais pino e espargata, mortais encarpados, tudo no mesmo anúncio, e ler no fim, como salário, "estágio" e entry level.

 

A seca de começo de Inverno ficou para trás e as barragens voltaram a encher-se de vida. Os campos estão cheios de flores e andorinhas, eu de novo em calções e cá vamos, de desânimo em desânimo, vivendo e confiando na providência divina, que a humana serve, afinal, de pouco.

 

O Trabalho deixou de ser um saudável tempo de troca de produção por sustento. Pelas mudanças de valores, longe de ideologias e moralidades, resta hoje um espelho de um modo de estar que nos oprime até à anemia, em nome de ganância, consumo e, principalmente, poder. Passou a ser impossível um trabalho que não traga com ele stress, carência, má chefia ou precariedade. Pior: deixou de haver trabalho onde nos possamos sentir parte dele.

 

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Bem, para me ajudar na minha demanda, uma amiga bem intencionada, e a quem agradeço, enviou-me o link do anúncio abaixo e que é o paradigma das nossas existências, exigências e correspondente estilo de vida.

As coisas não são como parecem. Ao fim de muita experiência de procura de emprego de bêcos sem saída, de enxurradas de publicidade de má índole no email (é para isso que existem redes de trabalho online; o benefício subjacente é colateral ou residual) aprendemos a decifrar anúncios e a interpretar linhas que já conhecemos de cór. Todo o texto a azul é a minha tradução do que julgo conhecer tristemente bem, à conta de milhares de filões intermináveis de ilusões sem consequência.

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Porque haveria eu de escolher ser designer gráfico? Arrumadinho como sou, Portugal perdeu foi um valioso varredor de ruas.

Com desânimo, mas sem desespêro. Amanhã será um novo dia. Deus nos ajude.

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(* Isto passou a ser uma expressão, um conceito, mais que uma graduação.)

 


Leão Perplexo às 15:22
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