Terça-feira, 9 de Janeiro de 2018

NOS ou Nós

O anúncio de natal da NOS é de deixar qualquer paralelipípedo rombo a chorar. O pai de família pré-quarentão de ar barbudo, bondoso e cansado, gera a ilusão de que o pai-natal existe a um filho pré-adolescente que, all he wants for christmas, é o próprio pai-pai. Pai-pai esse que trabalha tanto que não tem tempo para a família. A mãe-mãe quase não entra no anúncio, deixando à nossa interpretação de que o pai-pai está sozinho no mundo, no que diz respeito a salário, e tem de trabalhar como um camelo para sustentar as contas de todos os espertofónes, gadgets de ecran plano, tarifários pré-pagos e ela gostar de camisolas bonitas com cherinho a aloe-vera. Então, graças a um número de telefone privado deixado pelo pai-pai preocupado e que o miúdo de cara-de-cão-perdido-boca-de-trapos-que-não-sabe-guardar-segredos usa (o número do pai-natal), o pai-pai acaba por chegar mais cedo a casa, a horas de o natal começar. O número do pai-natal, revelado, que serviu para dar a volta ao mundo, (sim, que as telecomunicadoras não brincam em serviço,) era, afinal, o do pai-pai laboralmente competente, que resolveu, com toda a justiça, dar um manguito ao patrão em plena consoada.

Lindo! O natal venceu! O trabalho exacerbado perdeu e com ele as grandes corporações, o consumismo e o capitalismo também. Viva a família, o consumismo e o capitalismo!... Espera lá, o consumismo e o capitalismo também?! Sim, é mesmo confuso e paradoxal. Esses dois ganham sempre. É um win-win situation. Faz parte da forma como se fazem anúncios que mexam com a mona.

 

As pessoas envolvidas na feitura neste anúncio, desde os criativos até aos que o metem "no ar", como em todos os outros anúncios, tiveram 8 horas de trabalho por dia para o fazer, certo? Errado. Infelizmente para eles, para poderem cumprir com deadlines, provavelmente, precisariam de umas 29 ou 34 horas por dia, pelo que muitos não devem ter visto os filhos a crescer por alturas do natal e deixado de atender uma data de telefonemas familiares importantes. Úlceras, sandochas e salames manhosos da vending machine assim como muito café pela noite fora. Pausas rápidas para cigarros, vá. Miseravelmente, o dia a dia dos que fazem anúncios, é assim o ano todo e não só no natal.

Mas não são só os agentes publicitários que casam com o saco-cama, se divorciam por cansaço e deixam de saber o que é dormir sem comprimidos. Os que nos montam a box da NOS (e dos outros concorrentes todos: os que estão, os que hão-de vir e os que se hão-de fundir em OPAs equívocas de accionistas sacanas) são mal pagos e têm horários que não lembram a ninguém. E também os que estão no escritório, ao balcão, no hospital, no hipermercado, na oficina, na escola, no computador, nas entregas, na gráfica, na limpeza e ao telefone. Já ninguém sabe o que são horários decentes. Ou justos, que permitam ver as crianças antes de irem para a cama. Ou que estejam esclarecidos, sem contratos dúbios para cumprir. Estamos piores do que Marx poderia supor que estivéssemos. Quando começámos a fazer compras ao Sábado, esfaquiámos Moisés, sem darmos conta de que estávamos a escravizar outros. Começámos uma nova era do trabalho: O trabalho-escravo-voluntário. "Embarco nesta lama em nome de...".

 

Há uma data de tempo que já não somos NÓS, mas sim uma molhada de EUS individuais tontos, consumistas e desgarrados, que não percebem que tudo o que nos põem na frente é um tubérculo cor-de-laranja pendurado que nunca conseguiremos, sequer, mordiscar. Sempre a galope. Não percebemos que à nossa volta, ao nosso alcance, temos maçãs, morangos, picanha, faisão, bacalhau, batatas e tudo o que mais quisermos. Mas não. Somos burros. Burros preferem cenouras.

 

https://www.youtube.com/watch?v=gu96q9wGKoo


Leão Perplexo às 12:17
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