Terça-feira, 27 de Junho de 2017

O Aspirante

Ir ao hiper-mercado? Nem pensar. Isso não é thumbs-up o suficiente. Está cheio da populaça de linguajar de apartamento. Eu cá não sou desses. Eu sou "da Linha", vou à praça. Ver o peixe fresquinho na bancada

(Pelo menos pensas tu que a essa hora está fresquinho)

com moscas verdadeiras, no fakes. E farejar os cominhos e a hortelã.

(De aviário)

Isso sim é que é nice e dá ares de pessoa urbana ligada com a terra. Acordar tarde que ontem tive a ouvir Lounge Jazz até às quatro da manhã. Lindo! Foi uma ganda seca, mas estava lá aquela tropa da galeria, daqueles que pintam quadros à séria e vão a exposições chiques a valer,

(Parecem quadros, mas acho que são apenas telas com tinta rabiscada)

que fazem instalações com materiais incríveis

(Eles gamaram aquilo duma capoeira e arranjaram uns paus e umas madeiras que encontraram ao lado do contentor do lixo, pá)

e ouvem viníl, em vez de mp3. São os artistas contemporâneos de alternativa ao mainestrime. O mainestrime é para pessoas vulgares. Mas eu sou diferente.

(A-hã...)

Bem, depois receber os carapaus e os chocos amanhados do peixeiro, que diz bicha entre-dentes, e que deve ser para enviar discretamente o último cliente que chegou para o seu lugar,

(É isso é)

levar o almoço num saco de plástico transparente e passar pelo café gourmet tradicional da praça,

(gourmet E tradicional Hum-humm)

para beber um macchiatto. Muito fashion. Todos os empregados da "padaria" já me conhecem e gritam "Lourenço" sorrindo, quando é a minha vez. Eu retorno o sorriso sem espalhafatos, claro. Depois riem uns para os outros. Deve ser por terem um bom ambiente de trabalho e gostarem do que fazem.

(Ou por seres o alvo eleito da chacota da semana, uma dessas duas)

Pedir um croissant, polvilhado de açucar em pó e doce de mirtílo. E um garfinho. Sentar-me à mesa. Abrir o MacPro. Trocar Tuítes. Curiosamente não me têm seguido, mas deve ser um bâgue lá deles.

(De certeza que é isso)

Ao Facebook não vou, que já sei que é pra totós, embora já nem me lembre bem porquê. Mas era coisa séria. Acho giro, lá na mesa, com a maçãzinha chique a valer, a brilhar no café e o pessoal à volta com inveja. Computadores pretos, nem pensar.

(Nada totó, de facto)

E finalmente aproximar-me dela. Ela...

(Ela?)

Ela estava a pedir um capuccino com baunilha e eu meto-me ao lado, na fila, de esguelha, como se quisesse mais um descafeinado. "Carlos", digo eu ao empregado dos pedidos, passo com a língua nos lábios, à poeta, e conto aquela anedota do papagaio por cima do ombro dela, a que mete toda a gente a rir. (Sou um ganda maluco.)

(Nãããão! essa não...)

E assim foi, a malta atrás do balcão a morrer a rir e eu já a ver a coisa bem encaminhada, que ter graça é importante nas relações. Ela fez que não ouviu, ou que não percebeu (mas de certeza riu para dentro, que eu bem a vi a abanar a cabeça) e quando a Alda, a que serve, chamou "Jasmim" (adoro!) ela chegou-se à frente e foi com o tabuleiro

(Aonde é que ela terá ido "a rir pra dentro"? O mais certo é ter ido procurar um esconderijo)

para se sentar ao pé de um tipo finíssimo, com a barba bem feita. (Devia ser o irmão.) Mas tenho a certeza que amanhã quando a vir, por coincidência, outra vez, já trocamos números de telefone. Há claramente química entre nós, mas também há que ir com calma, para apimentar a coisas.

(Sim, o melhor é manteres a calma e o apimentamento praí por uns dez ou quinze anos a marinar na química. Digo eu)

Quando tomei duche de manhã, com aquele sabonete lindo e perfumado de lavanda, pensei logo que era um bom investimento para o resto do dia. Tinha a certeza que ela ía aparecer. Meti uma daquelas t-shirts novinhas em folha, com o Chewbacca à frente, de metrelhadora nas mãos, e com gola rasgada a passar pelo meio dos peitorais, que fazem ressaltar o pêlo, que eu cá não embarco em modernices,

(Ui)

e vesti o colete preto vintage, que agora até incomoda uma beca com o calor, mas que manda um estilo chique a valer inconfundível e ainda dá bem com o chapéu cru, que também é vintage, e que comprei em Carcavelos o mês passado.

(Lá isso dá mas não é bem por...)

Tou em pulgas é por comprar no Chiado (vou lá o tempo todo). Ando de olho naquelas calças de ganga com um azul especial que amei, com a dobrinha pela canela e rasgadas mesmo nos sítio certos. Realçam bem os sapatos rockabilly sem meias. Caraças, eu sou mesmo thumbs-up!

(É isso, é isso. E "chique a valer"... Desisto)


Leão Perplexo às 17:13
linque do poste
2 bitaites:
De Chic'Ana a 28 de Junho de 2017 às 09:37
Ahaha, há com cada personagem!!
beijinhos


De Zé das Bananas a 22 de Julho de 2017 às 00:20
muito bom!!!


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