Terça-feira, 20 de Junho de 2017

O Fantasma das 24 Horas*: Fiéis ao Guião

Quando a Toyota embarcou nesta aventura de ganhar as 24 Horas de Le Mans, a mais mítica e importante corrida de carros do mundo, não sabia onde se estava a meter. Talvez possa ser uma questão de culturas e mentalidades orientais. Ou não. O que é certo é que, com boa onda desportiva ou puras más intenções de vendas massivas na manga, nada podia fazer prever o que estava para lhes acontecer...

 

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Já no ano passado tinha sido mau demais: Após subjugar a eterna Porsche em treinos, pole, e marketing. Depois de dominar em prova por completo, tudo e todos, durante longas 23 horas e 50 minutos from dawn to dusk, para não dizer todo o ano anterior, eis que Kobayashi, segundos antes pensando em quantos degraus teria de subir para chegar ao ponto mais alto do podium com a bandeira do Japão, ou que tipo de razia artística faria ao homem com a bandeira-xadrez, grita para os seus colegas de box, parando mesmo ao seu lado, via radio "I have no power! I have no power!..." Durante alguns segundos parecia uma brincadeira, mas os semblantes de múmias silenciosas dos mecânicos, engenheiros e directores, de phones à Rato Mickey, anunciavam com mais clareza aquilo que as palavras vazias dos chatos dos comentadores, já com discurso de vitória feita, não conseguiam: o sistema eléctrico foi abaixo e o carro teve de ser reiniciado. Sim, isso mesmo.

Neste intervalo, o Porsche Nº1, sempre a uma distância táctica, parecendo adivinhar, como um tubarão nadando em círculos à volta da presa, estudando, só teve de aproveitar a deixa e fazer a última volta em primeiro para trincar o prémio... Era mau demais para ser verdade. As contas da Toyota teriam de ficar para ajustar em 2017.

 

Mas, hallas, 2017 seria ainda pior e mais humilhante. Porque agora já são duas grandecíssimas cabeças de melão seguidas, e não uma. E estas coisas entranham-se. Primeiro na pele, depois no coração. Quer se goste, quer não. 

É verdade que a corrida começou mal para a Porsche. O Nº2 teve problemas logo nas primeiras horas, passando perto de sessenta minutos a contas com mecânicos, deixando dois Toyotas, que já tinham emoldurado a foto da pole-position, nas boxes para a posteridade, livres contra apenas um Porsche que, mais uma vez se mantinha a observar de longe o imparável comandante rival. (O terceiro Toyota também estaria duas horas parado, ficando practicamente de fora de qualquer aspiração ao podium.) Mas enfim, tudo corria bem aos japoneses.

 

Foi então que, mais uma vez, O Fantasma de Le Mans reapareceu para explicar porque razão aquela corrida é tão especial, mantendo a tradição fiel aos guiões do pai Graton. Sim, foi perto das 24 horas que os dois Toyotas ficaram a contas com o seu destino. Mais uma vez - mas que pôrra de insistência da D. Ironia! - o mesmo Kobayashi do ano anterior, engrena a primeira em frente às boxes (outra vez?!) para mais não sair dela durante uma penosa volta que já não conseguiu acabar. Durante muitos longos e amargos minutos, nos quais testemunhou o Porsche Nº1 passar para a sua frente, a melhor companhia do azarado Kobayashi eram os insectos chocando contra o pára-brisas, atraídos pelos máximos faróis, em contraste com a noite quente e escura.

Ainda nas boxes não tinham recuperado do desgosto, de mãos mandadas à cabeça, e já o segundo Toyota, escasso quarto de hora depois, dava um toque num Oreca (ainda não muito bem explicado), indo parar à gravilha um quilómetro depois da box (outro "outra vez?!!") e contraindo uma doença de suspensão de que não se livrou mais, não chegando aos seus mecânicos a doze quilómetros, com uma labareda à rectaguarda, uma jante no osso e o carro aos saltinhos. Mais uma vez, a Porsche ficou com a porta escancarada para a vitória, podendo até fazer o resto da corrida em ritmo de cruzeiro.

 

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Mas o "Leader", (não o Porsche, mas o de Jean e Phillipe,) deu mais um ar da sua graça. A cinco horas do final, o sistema híbrido dá o berro e tudo vai à viola de modo absolutamente inacreditável. O Porsche Nº1 também fica de fora, incandescendo as alegrias da LMP2, categoria abaixo dos "gigantes" e agora promovida. 

 

Acabou por ser o Porsche-kiwi Nº2 a vencer, vindo das profundezas da persistência, mas na parte final jogando à defesa, não fosse o diabo... perdão, o Fantasma, tecê-las. Na segunda posição, chineses a rir de japoneses, e na terceira, Jean e Phillipe Graton, conduzindo por turnos geracionais a Rebbelião do melhor marketing que já vi, apesar da descomunal quantidade de sorte. Bem, uma "granda vaca", para ser mais claro. Mas rica em alcatra, de gostosa que era. 

Com tudo isto, já o Albuquerque merecia estar na Porsche. E, se para o Oreca da Rebbellion houve vaca, o Lamy teve um granda galo furado o que, mesmo assim, é melhor companhia do que a de Parente.

 

Bem, posta toda esta história, resta dizer sayonara, até pró ano, Toyotas. Azar do caraças, é o que é. Foi o que foi. E não esqueçam: da próxima, trazer mezinhas novas. E melhores. Mais eficazes. Peças japonesas made in Germany, talvez. Aquilo, lá por Le Mans, está pra lá de assombrado. E sem mongóis...

 

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(Escrevi isto, apenas para provar que é possível escrever em 2017 sobre Le Mans sem usar as expressões "equipa nipónica", "país do Sol-nascente", "equipa de Stuttgard", "vermelhão Ferrari", "cavallino rampante", "fabricante germânico", "mannschaft", "do país de sua majestade", "La Sarthe", "neo-zelandeses", "Domingos Piedade", "mais uma vez o azar batia à porta" e ainda usar a expressão "mítica" - referente a mito - apenas uma vez em todo o post.)

 

*As imagens de ilustração foram digitalizadas a partir do fantástico álbum "O Fantasma das 24 Horas", de Jean Graton, 1972, razão de existência de tão fino script, e cuja compra e leitura recomendo vivamente.

 


Leão Perplexo às 09:52
linque do poste
3 bitaites:
De Chic'Ana a 20 de Junho de 2017 às 11:08
Muito bom!! Feito conseguido e muito bem conseguido! =)
Beijinhos


De João Leal a 21 de Junho de 2017 às 13:32
Muito bom. Evitaste a gravilha dos clichés e contornaste com mestria entre as chicanes móveis.
Vi os últimos minutos, aquela luta entre o corvette amarelo e o aston martin. Muito fixe.
Depois fiquei a pensar que ali se passou o mesmo problema que na formula 1. Os motores estão demasiado complexos. Não me parece haver grande futuro para estes LP1


De Leão Perplexo a 22 de Junho de 2017 às 19:50
Obrigado, Chic'Ana. Amigo João, se a LMP1 se finar, não é problema nenhum. Depois das belas corridas de ELMS que vi no Estoril (e em Le Mans pela TV!) o futuro do automobilismo está garantido. Esquece a Formula 1. Isso morreu e foi a enterrar no dia 1 de Maio de 1994.


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