Terça-feira, 24 de Outubro de 2017

Todo o Homem Precisa de Dignidade - Ou as Longas Palavras que Não se Conseguem Dizer de Voz Embargada

Devemos ser humildes. Mas precisamos de dignidade. É suposto ser assim. Foi assim que Deus planeou.

 

Faz agora uns catorze anos e estava eu perdido, a pegar fogo. A morrer lentamente. Não tinha onde cair morto, senão em casa dos pais, num quarto cheio de talento e solidão. Sem namorada, emprego ou gasolina. Era motivo, ora de chacota, ora de pena. Não tinha dinheiro para café. Muito menos cara para levantar.

 

Foi neste tempo que o Paulo, um empresário da impressão em papel, resolveu pagar a gasolina que era precisa para me dar formação na sua empresa, longe, e assim dar-me um empurrão para cima. Falou com o irmão, o Daniel, que eu ainda não conhecia, e juntos viram no meio do lixo o brilho que ninguém viu. Apanharam-me em queda livre. Ofereceram-me, do seu bolso que sempre aparenta não ter fim, um estágio de quatro meses, num tempo em que também a sua própria vida profissional era incerta.

No momento mais difícil de pegar o touro pelos cornos, que é como quem diz, levar pela primeira vez uma carreira que se veja pela frente, durante mais de uma década, pagando impostos e contribuindo para a reforma que não sei se terei, o Paulo e o Daniel que, junto com os meus tios Cosmes, são as pessoas mais generosas que já conheci, deram-me muito mais do que a carreira que agarrei com unhas e dentes: deram-me a hipótese de voltar a levantar a cabeça e não viver mais obcecado com o medo de não ter onde dormir ou ter o que comer. Ou, sequer, ter um futuro.

 

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Os anos foram passando. O Paulo foi chamado pelo Vento para outros vôos. Obedeceu. O Daniel, instado a permanecer, também obedeceu, pagando preços altos que não merecia ter pago. Foi meu patrão, a maior parte do tempo; meu chefe, numa menor parte do tempo; meu pai, irmão e amigo, o tempo todo.

 

Hoje foi o meu último dia na empresa e amanhã será o começo de uma nova aventura que promete muitos frios na barriga pelos anos fora. (Ou meses. Ou dias.)

 

O futuro a Deus pertence. Mas já era assim antes de haver tempo. Não faço a mais pálida ideia, se esse futuro será melhor, ou pior. Mas sei que, se for metade do Daniel ou do Paulo, ainda que nada tenha, poderei ter a cabeça levantada até ao fim da minha vida.

Só falta a humildade. A dignidade já ma deram.


Leão Perplexo às 22:05
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1 bitaite:
De João Leal a 25 de Outubro de 2017 às 12:21
Há poucas coisas mais belas do que um coração agradecido. Podia ser o inicio de um letra de uma canção, mas é uma coisas que se sente quando se lê o que escreves ou quando se fala contigo.


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